Crescimento evangélico em Cuba: a ascensão da fé em um país ateu
Nos últimos anos, Cuba tem testemunhado um fenômeno surpreendente: o crescimento do evangelicalismo em um país que, por muito tempo, se definiu como ateu. A Revolução Cubana, que ocorreu em 1959, estabeleceu um regime que se distanciou da religião, promovendo uma visão materialista do mundo. No entanto, a crise econômica e social que o país enfrenta atualmente tem levado muitos cubanos, especialmente os mais jovens, a buscar consolo e esperança na fé. Neste artigo, exploraremos as razões por trás desse crescimento evangélico, as mudanças na relação entre o Estado e a religião, e o impacto que isso tem na sociedade cubana.
O contexto histórico da religião em Cuba
Cuba possui uma rica herança religiosa, com raízes católicas profundas, resultado da colonização espanhola. Além disso, as religiões de matriz africana, como a santeria, também desempenham um papel significativo na cultura cubana. Contudo, após a Revolução de 1959, o governo cubano adotou uma postura ateísta, promovendo uma interpretação marxista que afastava a religião da vida pública.
A Constituição de 1976 estabeleceu Cuba como um Estado laico, mas com um forte viés ateísta. O ensino superior, por exemplo, incluía disciplinas que promoviam o ateísmo científico, limitando o acesso de pessoas religiosas a cargos públicos. Essa política gerou um ambiente em que a prática religiosa era desencorajada, mas não completamente erradicada.
A crise econômica e a busca por fé
Nos últimos anos, Cuba tem enfrentado uma das piores crises econômicas de sua história. A escassez de alimentos, medicamentos e outros bens essenciais tem levado muitos cubanos a buscar alternativas para lidar com a desesperança. É nesse contexto que o crescimento das igrejas evangélicas se torna mais evidente.
De acordo com especialistas, a pandemia de COVID-19 e a crise econômica resultante impulsionaram a adesão de muitos cubanos à fé evangélica. O teólogo Eliecer Portal observa que momentos de crise frequentemente levam as pessoas a buscar apoio espiritual. “Quando sentem que suas vidas estão em jogo, muitos se voltam para a fé”, afirma.
O crescimento das igrejas evangélicas
Embora não existam dados oficiais sobre o número de evangélicos em Cuba, especialistas concordam que houve um aumento significativo nos últimos anos. Igrejas evangélicas, muitas das quais não estão ligadas a organizações internacionais, têm se multiplicado em todo o país. Essas congregações oferecem um espaço de acolhimento e pertencimento, atraindo muitos cubanos em busca de esperança e apoio.
As igrejas pentecostais e neopentecostais, em particular, têm ganhado destaque. Essas denominações enfatizam a experiência espiritual direta e a busca pela prosperidade, o que ressoa com muitos cubanos que enfrentam dificuldades financeiras. O pastor Daniel, da Igreja Cristo Fuente de Vida, destaca que as pessoas buscam a igreja para encontrar conforto e esperança em tempos difíceis.
A relação entre o Estado e a religião
Historicamente, a relação entre o governo cubano e as instituições religiosas tem sido tensa. No entanto, a partir da década de 1990, houve uma mudança significativa. A visita do papa João Paulo II em 1998 marcou um ponto de virada nas relações entre a Igreja Católica e o Estado cubano. Desde então, o governo tem adotado uma postura mais conciliatória em relação às religiões, permitindo uma maior liberdade de culto.
A Constituição de 2019 reconheceu a liberdade religiosa, embora ainda existam preconceitos e limitações. Pedro Sifontes, pesquisador da Universidade de Havana, observa que, apesar das melhorias, a prática religiosa ainda é vista como um ato individual, e não há censos religiosos que possam quantificar o fenômeno do crescimento evangélico.
O impacto social do crescimento evangélico
O crescimento das igrejas evangélicas em Cuba não se limita apenas à esfera espiritual. Essas instituições têm se tornado importantes espaços de apoio social, oferecendo serviços comunitários, como distribuição de alimentos e assistência a pessoas necessitadas. Além disso, as igrejas têm promovido um senso de comunidade e pertencimento que muitos cubanos buscam em tempos de crise.
Delana Corazza, cientista social e pesquisadora, destaca que as igrejas neopentecostais em Cuba seguem uma metodologia semelhante à encontrada em toda a América Latina, muitas vezes contando com financiamento estrangeiro. “As igrejas oferecem um espaço de acolhimento, de música, estética… Ali é uma válvula de escape”, afirma.
Desafios e tensões
Apesar do crescimento das igrejas evangélicas, ainda existem desafios e tensões. A hostilidade em relação a religiões de matriz africana, embora em menor escala, é uma preocupação. Além disso, a atuação política das igrejas evangélicas tem se tornado mais visível, com algumas lideranças se manifestando sobre questões sociais e políticas, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Frei Betto, teólogo e escritor, expressa preocupação com o surgimento dos neopentecostais como força política em Cuba. Ele observa que muitas dessas igrejas se opõem ao regime e promovem valores capitalistas, como individualismo e meritocracia. “O regime se aproxima do neoliberalismo por uma questão de sobrevivência da população”, afirma.
Conclusão
O crescimento evangélico em Cuba é um fenômeno complexo que reflete as mudanças sociais, econômicas e políticas do país. Em um contexto de crise, muitos cubanos têm encontrado consolo e esperança na fé, levando ao surgimento de novas igrejas e à revitalização da religiosidade. Embora a relação entre o Estado e a religião tenha melhorado, ainda existem desafios e tensões que precisam ser abordados. O futuro da fé em Cuba continua a evoluir, e a ascensão do evangelicalismo é um sinal de que a busca por significado e pertencimento é uma constante na vida dos cubanos.
Para mais informações sobre o crescimento evangélico em Cuba, você pode acessar a fonte de referência: BBC News.
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